A exposição com curadoria de Tadeu Chiarelli revela um Ismael Nery atual, cujas reflexões sobre o eu e a ambiguidade ecoam no presente. Ismael Nery (1900–1934) atravessou o modernismo brasileiro de modo tão intenso quanto breve. Poeta, pintor, desenhista obstinado e criador de uma filosofia própria — o essencialismo —, sua obra se organiza em torno de uma pergunta central, repetida em diferentes registros: quem sou eu?Essa interrogação aparece de forma insistente nos inúmeros autorretratos que Nery produziu ao longo da vida, nos quais a identidade é posta em jogo como fragmento, deslocamento e recomposição. A busca não é apenas pela imagem do indivíduo, mas pela sua dissolução em pares de opostos: corpo e espírito, sombra e luz, masculino e feminino. Não por acaso, os retratos que fez ao lado de Adalgisa Nery, companheira e musa, sugerem um processo de fusão — como se o casal fosse uma só entidade, ambígua e indivisa.A mostra “Ismael Nery: crônica e sonho”, com curadoria de Tadeu Chiarelli, reúne cerca de 60 obras, entre seis óleos e 56 trabalhos sobre papel — aquarelas, guaches, nanquins e grafites — que percorrem a produção do artista